sexta-feira, 17 de julho de 2015

Eu era assim... por Jairo Sarfati | Coluna de 3° Pessoa

Eu era assim...
Por muito tempo preguei contra o bullying, falando sobre como ele ocorre e como pode ser evitado. Contudo, me sinto um pouco hipócrita, pois sempre escondi meu passado de bullying e minha infância.  Acredito que meu bullying adveio da minha infância. Nunca fui o tipo de criança que brincava na rua, que andava da bicicleta com os amigos, que brincava de bola. Era um tipo solitário de criança, brincava em casa com meus amigos imaginários. Pegava revistas em quadrinhos e lia para ninguém em especial. Acredito que isso me levou ao bullying inicial.
Na escola, quando comecei a me dar conta do que era socializar, ou melhor, quando tive a primeira noção de timidez que crianças muito novas geralmente não têm, percebi que tinha que socializar. Mas como? Tentei a abordagem que tinha com meus amigos imaginários, a mesma sinceridade de falar qualquer coisa, explicar qualquer coisa. Comentar sobre os desenhos que via na TV, o meu sonho de ter uma emissora de televisão, onde iria passar desenhos o dia todo! (Mas só os desenhos que eu gosto, claro). Resultado? Ninguém queria falar comigo. Acho que esse foi o primeiro choque de realidade que a vida me deu.
Foi na quarta série, na mudança para uma escola completamente nova, (a primeira escola que eu realmente quis estudar de verdade), que tudo começou e mudou. Ali eu caí, ali chorei, ali sofri, ali aprendi e ali cresci.
Bem, eu era o aluno mais velho. Vocês podem pensar assim “ai, ele é mais velho, deve ser o chefão da sala”, NÃO, redondamente enganados! Ser mais velho numa turma significa ter escrito “repetente” na testa. E acredito que realmente tinha! E não escondo; repeti uma série, por anos escondia, dizendo que comecei a estudar tarde, mudando as desculpas às vezes etc. Entretanto, uma mentira dessa magnitude não poderia ser contada para sempre, ninguém pode mentir para si mesmo por muito tempo. Eu tinha tanta vergonha desse fato, que era mais fácil esconder e fingir que não existia. Hoje vejo que isso só me fez crescer.
Meus dentes eram tortos e separados, do tipo que poderia colocar a tampa de uma caneta entre o espaço dos dois dentes da frente. Isso acabava com a minha autoestima. Era um prato cheio para o bullying. Façam os cálculos: uma criança estranha com problemas de socializar, dentes separados, quase careca, com óculos enormes e de quebra aparelho ortodôntico. Qual a soma de vocês? A minha deu Bullying na certa.
Eu aguentava xingamentos, caras apáticas, caras feias, pessoas saindo do meu lado, ser o último a ser escolhido para tudo, sem noção alguma do que era ter um amigo, listas de “mais feios da escola”, xingamentos rabiscados dentro do banheiro, vaias ao expressar meus pensamentos e humilhações diversas. TUDO ISSO. Aguentei calado, mas sabia que acumular coisas dentro de mim por muito tempo, faria me explodir alguma hora. Ia sim e explodiu, pra quê, senhor??? Minha crise de choro só causou mais e mais risadas. Nunca vou esquecer o dia em que me tranquei no banheiro e chorei até alguém da coordenação me tirar do banheiro por estar perdendo aula.
Eu me sentia tão pequeno, tão indefeso, tão limitado, até que me fizeram ver que nasci para ser grande, que não sou indefeso, que sou ilimitado. Que poderia ser qualquer coisa que eu quisesse. Hoje agradeço a coordenação da minha escola por ter me ouvido, aguentado, me dado conselhos valiosos. Deixei tudo isso de bullying de lado, repetia meu mantra “Preciso estudar, quando a escola terminar, esse pesadelo termina também”. Então não se calem, falem o que pensam! Desabafem! Ninguém pode dizer que você é pequeno, ninguém pode fazer você se sentir pequeno. Aos poucos foi acabando, aos poucos foram me enxergando como um ser pensante, com opiniões que valiam ser ouvidas, mas não foi simples. Tive de bater o pé e estudar a ponto de me destacar como melhor da sala. Me enxergaram? Sim. E aí veio um fato que mudou tudo. Tive meus amigos verdadeiros, os que ficaram do meu lado em todo esse tempo, mas sei que muitos estavam falando comigo, notando que eu existia pelo simples fato de eu ser um aluno do ensino médio que estava prestes a publicar um livro. Que iria ter o livro exposto em vários lugares do país.
Escrever e publicar um livro era meu sonho.  E mantive isso até o fim, e por acreditar que era possível, tudo isso foi possível. Ser um “popularzinho” na escola não era meu objetivo, nem ser um “popularzinho” em lugar nenhum. Apenas queria fazer o que amo, se perguntarem se eu esperava por tudo o que me aconteceu até hoje, estaria mentindo se dissesse que sim. Eu realmente não esperava. Fiquei feliz, pois estava livre do bullying. Livre? Não mesmo.
No início da minha carreira eu tive problemas. Não conseguia expressar minha opinião sem medo de ser reprimido por alguém. O que é isso? Trauma. Sempre que eu expressava qualquer opinião, por mais inteligente que fosse, era vaiado. Esse trauma me deu um medo de público. Outros traumas me deram problema na autoestima, na forma de falar, no medo de falar com outras pessoas, no medo de me apegar a qualquer pessoa em qualquer vínculo. Esse trauma me seguiu na vida acadêmica, a ponto de até dúvida ter medo de tirar! Tinha que dar um basta nisso.
Sempre achava que teria alguém ali me julgando em qualquer coisa. E quer saber? Sempre tem alguém te julgando, mas danem-se eles! Estou aqui e vou expressar o que quero, vou falar o que quero, ninguém vai me limitar. Somos estrelas, viemos ao mundo para brilhar, então ninguém pode nos apagar.
Também percebi que nada melhor que o tempo, ele pode curar tudo, pode mudar tudo. O garotinho que usava óculos e aparelho e era zoado por isso, hoje não usa mais óculos, hoje é feliz com o próprio sorriso e sorri para todo o mundo. O garoto que não tinha amigos, hoje consegue socializar em qualquer meio que quiser. Mas essas são coisas que eu mesmo fiz por mim (claro que com a ajuda de terceiros).
Mas Jairo, por que você mudou a si mesmo para agradar eles? Não, não, quem disse? Mudei sim, de fato, mas mudei por mim, mudei porque acredito que todo mundo uma hora gosta de um upgrade. Não mudei para me adaptar a tudo, até porque isso é impossível! Mudei para ser algo que eu queria. Contudo, a maior mudança está dentro de mim. Digam o que quiserem de mim, façam o que quiserem contra mim, não me importo, sei o que sou, sei o que posso ser e sei o que quero. Minha maior arma não é essa carcaça que agora te escreve, mas essa alma que em mim habita, minhas ideias, meus pensamentos. Estas são minhas armas.
Sou ilimitado. Somos ilimitados, somos estrelas.

Texto por Jairo Sarfati.

Um comentário:

  1. Bullying realmente é algo inadmissível. Pequenas ações podem sim fazer muita diferença O importante é não ficarmos calados.

    ~ Vitor Iury Neves

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