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4 de jun de 2015

Saiu! Trecho de Magnus Chase com Annabeth

O primeiro volume de Magnus Chase e os Deuses de Asgard vai ser lançado dia 06 de outubro de 2015. Enquanto a gente espera podemos dar uma espiadinha no trecho do primeiro capítulo onde aparece nossa já conhecida e amada Annabeth Chase, que nessa nova série será prima de Magnus e esperamos que ela tenha uma boa participação.
Um
BOM DIA! VOCÊ VAI MORRER. 
É, EU SEI. Vocês vão ler sobre como eu morri em agonia, e vão estar tipo, “Uau! Isso parece legal, Magnus! Eu posso morrer em agonia também?”.
Não, apenas não.

Não saia pulando de nenhum telhado. Não saia correndo por uma autoestrada ou coloque fogo em si mesmo. Não funciona desse jeito. Você não vai acabar aonde eu acabei.

Além do mais, você não iria querer lidar com a minha situação. A não ser que tenha alguma vontade maluca de ver guerreiros mortos se fazendo em pedaços, espadas voando para cima de narizes gigantes e elfos sombrios com roupas irritantes, você não deveria sequer pensar em encontrar os portões com cabeça de lobo.

Meu nome é Magnus Chase. Eu tenho dezesseis anos. Essa é a história de como minha vida foi a ladeira abaixo depois de eu ter me matado.

Meu dia começou tranquilo até demais. Eu estava dormindo na calçada debaixo da ponte no Public Garden quando um cara me acordou com um chute e disse, “Eles estão atrás de você”.

A propósito, eu sou um sem-teto há dois anos.

Alguns de vocês talvez pensem, Ah, que triste. Outros talvez pensem Ha, ha, otário! Mas se alguns de vocês já me viram na rua, há noventa e nove por cento de chance de terem passado por mim como se eu fosse invisível. Talvez tivessem pensado, Tomara que ele não venha me pedir dinheiro. Teriam imaginado se sou mais velho do que aparento, porque certamente um adolescente não estaria envolvido em um fedido saco de dormir, preso no meio do inverno de Boston. Alguém deveria ajudar aquele pobre garoto!

E então continuariam andando.

Que seja. Eu não preciso da sua compaixão. Estou acostumado a ser ridicularizado. Eu definitivamente estou acostumado a ser ignorado. Vamos seguir em frente.

O ordinário que me acordou foi um cara chamado Blitz. Como sempre, ele olhou para mim como se tivesse passado por um tornado de sujeira. Seu cabelo negro estava cheio de pedaços de papel e galhos. Sua barba ondulava para todas as direções. Havia neve encrostada na parte anterior da sua capa de chuva, que encostava nos seus pés – Blitz tinha um pouco mais de um metro e meio – e seus olhos estavam tão dilatados que suas íris eram pupilas. A sua incessável expressão de alarmado fazia parecer que ele poderia começar a gritar a qualquer segundo.

Eu pisquei até a lama sair dos meus olhos. Minha boca fedia a hambúrguer estragado. Meu saco de dormir estava quente, e eu realmente não queria sair dele.

“Quem está atrás de mim?”

“Não tenho certeza.” Blitz esfregou o nariz, que já tinha sido quebrado tantas vezes que se assemelhava ao ziguezague de um raio. “Eles estão distribuindo panfletos com seu nome e foto.”

Eu xinguei. Com guardas de parque e policiais eu poderia lidar. Monitores, voluntários de serviço comunitário, estudantes de faculdade bêbados, viciados fazendo rolar alguém pequeno e fraco – acordar com todos esses seria tão maravilhoso quanto panquecas com suco de laranja.

Mas quando alguém sabia meu nome e rosto – isso era ruim. Isso significava que estavam focando especificamente em mim. Talvez os caras do abrigo estivessem chateados comigo por ter quebrado o som deles. (Aquelas canções de natal estavam me deixando maluco.) Talvez uma câmera de segurança tenha pegado um pedaço da batida de carteira que fiz no Theater District. (Ei, eu precisava de dinheiro pra pizza.) Ou talvez, tão improvável quanto parece, a polícia ainda estaria procurando por mim, querendo fazer perguntas sobre o assassinato da minha mãe…

Eu empacotei minhas coisas, o que levou três segundos. O saco de dormir ficou bem enrolado e coube na minha mochila, junto com minha escova de dente, meias e roupas de baixo. Exceto pelas roupas nas minhas costas, era tudo o que eu tinha. Com a mochila no ombro e o capuz do casaco, eu pude me misturar muito bem pelos pedestres. Boston era cheia de alunos da faculdade. Alguns deles pareciam serem mais jovens e magricelas do que eu.

Eu me dirigi ao Blitz. “Onde você viu essas pessoas com folhetos?”

“Beacon Street. Eles estão vindo nessa direção. Um cara de meia-idade branco e uma adolescente, provavelmente sua filha.”

Eu franzi o cenho. “Isso não faz sentido. Quem–”

“Eu não sei, garoto, mas preciso ir.” Blitz semicerrou o pôr-do-sol, que deixou as janelas dos arranha-céus laranja. Por razões que eu nunca entendi, Blitz odiava a luz do dia. Talvez ele seja o menor sem-teto vampiro robusto no mundo. “Você deveria ir ver o Hearth. Ele está no Copley Square.”

Eu tentei não me sentir irritado. As pessoas da rua faziam piada dizendo que Hearth e Blitz eram meus pais, porque sempre um deles parecia estar pairando sobre ao meu redor.

“Eu agradeço,” eu disse. “Vou ficar bem.”

Blitz mordeu a unha do polegar. “Sei lá, garoto. Hoje não. Você precisa estar extremamente cauteloso.”

“Por quê?”

Ele olhou por cima do meu ombro. “Eles tão vindo.”

Eu não vi ninguém. Quando me virei, Blitz tinha sumido.

Eu odiei quando ele fez isso. Simplesmente – poof. O cara era como um ninja. Um ninja sem-teto vampiro.

Agora eu tinha uma opção: ir para o Copley Square e me encontrar com Hearth ou virar a esquina da Beacon Street e tentar identificar as pessoas que estavam atrás de mim.

A descrição que Blitz fez deles me deixou curioso. Um homem branco de meia-idade e uma adolescente procurando por mim no amanhecer em uma manhã gelada. Por quê? Quem eram eles?

Arrastei-me ao longo da beira da lagoa. Quase ninguém seguia a trilha debaixo da ponte. Eu poderia me esconder e observar qualquer aproximação na trilha de cima sem que me vissem.

A neve cobriu o chão. O céu estava um azul de doer os olhos. Os galhos nus das árvores pareciam que haviam sido mergulhados em vidro. O vento me cortava pelas camadas de roupas, mas eu não me importei com o frio. Minha mãe costumava fazer piadas de que eu era um urso polar.

Droga, Magnus! Repreendi a mim mesmo.

Depois de dois anos, minhas memórias sobre ela ainda eram um campo minado. Tropecei em uma e instantaneamente minha compostura foi reduzida a pedaços.

Tentei me focar. O homem e a garota estavam vindo por aquele caminho. O cabelo arenoso do homem cresceu até seu colarinho – não como um estilo intencional, mas como se ele não se incomodasse em cortá-lo. Seu rosto perplexo me lembrou a de um professor substituto. Sei que eu fui atingindo por um bolo de cuspe, mas não tenho ideia de onde veio. Seus sapatos estavam totalmente em desacordo com o clima invernal de Boston. Suas meias eram de tons diferentes de marrom. Sua gravata parecia que fora amarrada enquanto ele girava no escuro total.

A garota era definitivamente filha dele. Seu cabelo era cheio e ondulado, embora de um loiro luminoso. Ela estava vestida de forma mais sensata em botas de neve, jeans e uma jaqueta, com uma camiseta laranja a mostra na região do decote. Sua expressão era mais determinada, raivosa. Ela agarrou um maço de folhetos como se eles fossem dissertações em que ela foi avaliada injustamente.

Se ela estava procurando por mim, não queria ser encontrado. Ela era assustadora.

Não a reconheci ou o pai dela, mas alguma coisa fisgou na parte de trás do meu cérebro… Como um imã tentando atrair uma memória muito antiga.

Pai e filha pararam onde o caminho bifurcava. Olharam ao redor como se apenas agora percebessem que estavam parados no meio de um parque deserto em uma hora desagradável na calada do inverno.

– Inacreditável. – disse a garota. – Eu quero estrangular ele.

Supondo que ela falava de mim, me agachei um pouco mais.

Seu pai suspirou.

– Nós provavelmente devíamos evitar matá-lo. Ele é seu tio.

– Mas dois anos?! – a menina perguntou. – Pai, como ele pode não nos contar por dois anos?!

– Não posso explicar as ações de Randolph. Nunca pude, Annabeth.

Eu inspirei fundo, estava com medo de que me ouvissem. Uma cicatriz fora aberta em meu cérebro, expondo memórias cruas de quando eu tinha seis anos.

Annabeth. O que dizia que o cara de cabelos cor de areia era… Tio Frederick?

Lembrei-me do último dia de ação de graças que estávamos juntos: Annabeth e eu nos escondendo na biblioteca da casa do tio Randolph na cidade, jogando dominó enquanto os adultos gritavam uns com os outros lá embaixo.

Você tem sorte de viver com sua mãe. Annabeth empilhou outro dominó em seu edifício de miniatura. Era fantástico, com colunas na frente, como um templo. Eu vou fugir.

Não tinha dúvidas que ela queria dizer isso mesmo. Eu admirava seu segredo.

Então tio Frederick apareceu na porta. Seus punhos estavam cerrados. Sua expressão sombria estava em desacordo com a rena sorridente no seu suéter. Annabeth, estamos saindo.

Annabeth olhou para mim. Seus olhos cinza estavam um pouco ferozes para uma aluna da primeira série. Fique bem, Magnus.

Com um movimento de dedos, ela derrubou o seu templo de dominó.

Essa foi a última vez que eu a vira.

Desde então, minha mãe tinha sido inflexível. Ficaremos longe dos seus tios. Principalmente Randolph. Não darei o que ele quer. Nunca.

Ela não explicaria o que Randolph queria, ou o que Frederick e Randolph falaram.

Você tem que acreditar em mim, Magnus. Ficar com eles por perto… É perigoso demais.

Eu confiei em minha mãe. Mesmo após a sua morte, eu não tive contato algum com meus parentes.

Agora, de repente, eles estão me procurando.

Randolph vivia na cidade, mas até onde sei Frederick e Annabeth ainda viviam na Virgínia. No entanto, eles estavam aqui, distribuindo panfletos com meu nome e foto. Onde eles conseguiram uma foto minha?!

Minha cabeça zumbia tanto que perdi uma parte da conversa deles.

-… Encontrar Magnus. – Tio Frederick estava dizendo. Ele checou seu smartphone. – Randolph está no abrigo da cidade na South End. Ele disse que não teve sorte. Devíamos tentar o abrigo de jovens em frente ao parque

– Como eles sabem que Magnus está vivo, ao menos? – Annabeth perguntou infeliz. – Perdido por dois anos? Ele poderia muito bem estar congelado numa vala em algum lugar.

Parte de mim queria sair do meu esconderijo e gritar “TA-DÃ!”.

Ainda assim, mesmo havendo dez anos que vi Annabeth, eu não gostava de vê-la aflita. Mas depois de tanto tempo nas ruas, aprendi da maneira mais difícil: nunca se meta em uma situação enquanto não entender o que está acontecendo.

– Randolph tem razão – disse o Tio Frederick. – Magnus está vivo. Ele está em algum lugar de Boston. Se a vida dele está seriamente em apuros…

Eles partiram em direção a Charles Street, suas vozes carregadas pelo vento.

Eu estava arrepiado, mas não era do frio. Quis correr atrás de Frederick, enfrentar ele e perguntar o que estava acontecendo. Como Randolph sabia que eu ainda estava na cidade? Por que eles estavam procurando por mim? Como minha vida estava em perigo agora mais do que qualquer dia?

Mas não os segui.

Lembrei a última coisa que minha mãe me disse. Estava relutante em usar a escada de incêndio, relutante em deixá-la, mas ela segurou meus braços e me fez olhar em seus olhos. Magnus, corra! Esconda-se. Não acredite em ninguém. Vou te encontrar. Não importa o que você faça, não vá atrás de Randolph por ajuda.

Então, antes de eu sair pela janela, a porta do apartamento estourara em lascas. Dois pares de olhos azuis brilhantes emergiram da escuridão.

Abandonei a memória e observei tio Frederick e Annabeth irem embora, tornando-se parte da população.

Tio Randolph… Por alguma razão, ele entrou em contato com Frederick e Annabeth. Ele os levara para Boston. Todo esse tempo, Frederick e Annabeth não sabiam que minha mãe estava morta e eu, desaparecido. Parecia impossível, mas se fosse verdade, por que Randolph contaria para eles só agora?

Sem confrontar ele diretamente, eu só poderia pensar em um único jeito de conseguir respostas. A casa dele era na Back Bay, uma caminhada tranquila a partir daqui. Ele estava em algum lugar em South End, procurando por mim.

Uma vez que nada começaria um dia melhor do que uma pequena invasão, decidi fazer uma visitinha a ele.
Postado por Vitória Cholanda.

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